Brasília, a capital nordestina fora do Nordeste
- De Fato

- 21 de mai. de 2024
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Atualizado: 6 de jun. de 2024
Os nordestinos que superaram desafios na capital e alcançaram grandes feitos são exemplos de sucesso em várias áreas.
Desde a época da construção da capital federal, Brasília segue acolhendo os imigrantes de todas as regiões do país. E há uma região que se destaca pelo grande fluxo migratório para a capital, o Nordeste. Ao chegar ao Planalto Central, os candangos, como eram chamados os imigrantes que vieram para construção, em sua maioria de origem nordestina, eram encaminhados ao Instituto de Imigração e Colonização (Inic), órgão da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) responsável pela seleção dos operários.
No Inic, eles obtinham seu cartão de identificação (necessário para circular nos acampamentos) e era designado para trabalhar em uma das construtoras ou na própria Novacap, onde sua carteira de trabalho era assinada — geralmente, pela primeira vez.
Após o registro, o migrante era conduzido ao almoxarifado, onde recebia colchão, cobertor e travesseiro. Em seguida, podia fazer uma refeição na cantina do acampamento da construtora contratante ou em um dos restaurantes administrados pela Novacap.
Os serventes eram alojados em grandes galpões. Já os mestres de obra dormiam em pequenos quartos de madeira. O cotidiano dos trabalhadores de Brasília era árduo. Os operários trabalhavam das 6 horas da manhã até o meio-dia, faziam um intervalo de uma hora e depois encaravam novo turno até as 18 horas. Em alguns casos, trabalhavam 14, 15, 16 horas por dia. O salário era pago por horas trabalhadas e, para aumentar seus rendimentos, muitos faziam hora extra.
Hoje, os nordestinos de diferentes estados são parte importante da população do Distrito Federal. Segundo dados da Pesquisa Distrital de Amostra de Domicílios (PDAD - 2021)executada pela Companhia de Planejamento (Codeplan), dos 44.5% da população que nasceram fora do DF, 54.1% são nordestinos.

Os imigrantes nordestinos não só enfrentaram as adversidades na capital, mas também tiveram conquistas monumentais. Eles tornaram-se protagonistas das suas histórias e superaram as expectativas, e Brasília segue acolhendo esses imigrantes nos dias atuais.
Atualmente, eles possuem histórias que inspiram e que se tornam referências no empreendedorismo, na educação e em diversos outros setores da cultura e da economia. Vamos conhecer alguns desses imigrantes.
Pernambucana fã de carnaval, Joanice compartilha uma história de idas e vindas com a capital federal

Pernambucana de 64 anos, Joanice Medeiros Arruda nasceu em Recife, capital do Pernambuco, mas viveu na cidade vizinha, Olinda, mais especificamente na Rua Nelson Guedes da Silva, mais conhecida por “Beco do Lixo”. Vivia com sua avó e três irmãos. Ela se lembra de sua infância, que vivia rodeada de amigos, brincadeiras na rua, passeios nos parques. “Eu tive uma infância repleta de felicidade”, destaca a professora.
Ao terminar o ensino médio, ela já conquistou também o diploma de curso técnico em Decoração de Interiores, o pontapé inicial que a fez despertar para as artes. Joanice fez o vestibular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife. Lá, ela começou a cursar sua primeira graduação, Letras. Ainda na faculdade, ela casou-se com o militar Dorival.
Em 1998, ela saiu de Pernambuco para Manaus, capital do Amazonas, decorrente da transferência de seu marido militar. Em Manaus, ela era professora concursada da prefeitura e do Estado. Ainda no Amazonas, ela decidiu fazer sua segunda graduação, e não foi diferente: ela passou no vestibular novamente, desta vez para Artes na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) . Porém, cursou apenas três períodos. Em Manaus, ela viveu até 2001, pois seu marido foi novamente transferido, agora para Brasília.
Em 2001, começa a história da professora com Brasília. Logo que chegou, ela morou no Setor Militar Urbano (SMU) e começou a trabalhar num escritório que representava o governo de Pernambuco em Brasília. Também iniciou seus estudos em artes plásticas na Universidade de Brasília (UnB). Joanice conseguiu se formar em 2006 na capital federal, mas se viu num dilema de se mudar para Manaus novamente. Ela ficou balançada e por conta dos dois cargos que ocupava na capital amazonense, decidiu voltar. Mas sua história com Brasília não acaba aí.
Em 2009 ela e sua família voltam para a capital federal, agora residindo no Cruzeiro; dessa vez, ela passa no concurso da Secretaria de Educação do DF e em 2012 assume o cargo de professora efetiva de Artes. Pouco tempo após, ela comprou sua casa em Vicente Pires, lugar que é seu lar há 14 anos.

Joanice já trabalhou em diversas escolas pelo DF. Ela conta que aqui não sofreu preconceito relacionado com a sua identidade de mulher negra, mas passou por algumas situações onde seu sotaque era colocado em questão em diversos momentos.
“Muitas pessoas me imitavam, de aluno a professor”.
Como professora, isso se tornou um desafio ainda maior. “Muitas pessoas me imitavam, de aluno a professor”, cita a professora. Visando combater isso, ela sempre trazia em suas aulas a pauta do regionalismo, e buscava conscientizar e informar seus alunos sobre a importância da pluralidade e diversidade que há no Brasil.
Passar por essas situações pode influenciar, e muito, na vida de uma pessoa, mas Joanice não se deixa abater com tais opiniões, pois ela sabia de si e de sua identidade. Desde que chegou, ela sempre tentou se manter fiel e conectada a suas raízes e além trazer pautas nordestinas em suas aulas, ela buscava consumir cultura, pois em Pernambuco há diversas manifestações artísticas como o samba de roda, o frevo, o maracatu.
Hoje, Joanice segue aposentada aproveitando e curtindo sua vida ao lado de seu esposo. Apaixonada pela cidade, ela não consegue imaginar viver em outro lugar a não ser em Brasília, cidade onde ela construiu seu lar.
Guilherme Antônio, o jovem do Nordeste viciado em ganhar Olimpíadas

Guilherme, o jovem baiano de Santana, cidade do Oeste da Bahia, chegou à Brasília para estudar em uma das melhores universidades do país, a Universidade de Brasília (UnB) graças aos seus estudos e dedicação. Ele está a apenas dois meses na capital federal e sua jornada acadêmica está apenas no começo, mas ele está se saindo muito bem, pois se adaptou rapidamente à rotina brasiliense. Guilherme mergulha de cabeça nos estudos, e está apaixonado pela Engenharia Mecatrônica, curso que escolheu cursar.
O baiano já conquistou mais de oitenta premiações em diversas olimpíadas de matemática, ciências, dentre outras. Seu talento e empenho foram reconhecidos em várias ocasiões, por isso ele já foi convidado para homenagens e premiações em Salvador e Brasília.
Guilherme achou que estando na capital federal iria encontrar muitas diferenças culturais, mas não. O baiano diz se sentir muito acolhido. “Por minhas tias morarem em São Paulo, achei que Brasília fosse do mesmo jeito, mas não aqui me sentir acolhido”, acrescenta.
"Aqui em Brasília tem muita representatividade nordestina, inclusive é possível escutar o sotaque nordestino por toda a cidade ”.
Ademais, ele retrata que Brasília é cheia de nordestinos e não vê muita diferença cultural. Outra coisa que Guilherme observou é que Brasília tem, sim, sotaque. “Estou vivendo praticamente a mesma realidade, aqui em Brasília tem muita representatividade nordestina, inclusive é possível escutar o sotaque nordestino por toda a cidade ”, cita Guilherme.
A trajetória de Guilherme vem sendo um exemplo de como a determinação e a busca pelo conhecimento podem transformar vidas. Atualmente ele mora no Riacho Fundo com uma amiga de sua irmã. De um menino do interior do Nordeste a um estudante premiado na capital do país, ele segue provando que não há limites para quem tem vontade de aprender e crescer. Sua trajetória explicita que mesmo hoje Brasília segue sendo um berço de oportunidades.
Há empreendedorismo nordestino na capital federal?
O empreendedorismo tem se acentuado cada vez mais no Brasil, principalmente o liderado por mulheres. E em Brasília, não é diferente, pois reflete não apenas a força econômica das mulheres, mas também seu papel crucial no desenvolvimento socioeconômico do país.
Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas e Empresas (Sebrae), as mulheres empreendedoras correspondem a mais de 10 milhões no mercado, sendo a maioria nas classes C, D e E. De todos os empreendedores do país, 34% são mulheres.
No Brasil, o empreendedorismo feminino tem apresentado um crescimento significativo nos últimos anos. Segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM), em 2021, as mulheres representavam 48,7% dos empreendedores em estágio inicial no país. E em Brasília, o cenário empreendedor também tem sido impulsionado por mulheres. Dados da Junta Comercial do Distrito Federal (Jucis-DF) revelam que, nos últimos cinco anos, houve um aumento de 23% no número de empresas abertas por mulheres na capital federal.
Apesar dos avanços, empreendedoras enfrentam desafios, como acesso ao crédito. Pesquisas indicam que as mulheres têm mais dificuldade em obter empréstimos e financiamentos do que os homens. No entanto, programas governamentais e iniciativas privadas oferecem linhas de crédito específicas para mulheres empreendedoras, buscando mitigar essa disparidade.
A colaboração entre as empreendedoras é essencial, contribuindo para o fortalecimento de grupos e redes de apoio. Nesse sentido, o futuro é promissor, mas requer investimentos em educação, capacitação e igualdade de oportunidades para sustentar um desenvolvimento inclusivo e sustentável. E há mulheres nordestinas que tem suas histórias de vida atreladas com o fato de empreender; vamos conhecer algumas dessas mulheres:
Não apenas uma “paraíba”, Waleska é uma mulher cuja trajetória inspira e emociona

Nascida em Campina Grande, capital da Paraíba, a empreendedora, escritora e jornalista Waleska é a personificação da determinação e da resiliência. Cresceu em uma família numerosa, com doze irmãos, em meio a uma realidade marcada pela luta diária e pela forte ligação com a política local.
Apesar das adversidades, ela encontrou na educação o caminho para realizar seus sonhos. Estudou jornalismo na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), onde se destacou pela dedicação e pelo comprometimento com seus objetivos.
Em 2000, a escritora tomou uma decisão corajosa: deixar sua cidade natal e rumar para Brasília, em busca de novas oportunidades. Na UnB, ela aprimorou seus conhecimentos em jornalismo, realizando uma especialização que solidificou sua paixão pela área. Durante sua jornada acadêmica, ela sempre foi uma presença marcante no cenário jornalístico da faculdade, destacando-se por sua ética profissional e por sua militância a favor das minorias.
"Me falaram que eu era ótima, mas quando abria a boca não passava de uma 'paraíba', infelizmente fui rotulada a esse estereótipo”
No entanto, o preconceito ainda era uma realidade que a jornalista, infelizmente, segue enfrentando. Em uma entrevista de emprego, numa renomada emissora de TV, ela foi reduzida a um estereótipo regional, por um dos diretores da emissora "me falaram que eu era ótima, mas quando abria a boca não passava de uma uma 'paraíba' infelizmente fui rotulada a esse estereótipo”, desabafa.
Mas sua determinação e competência falaram mais alto, e ela superou essas barreiras, fazendo história no jornalismo brasiliense. Hoje, Waleska é uma mãe dedicada e uma profissional respeitada, atuando como microempreendedora individual (MEI) na assessoria de imprensa Waleska Barbosa.
Adélia, a empreendedora destaque em Brazlândia

A piauiense Adélia Rodrigues de França nasceu e viveu em Monte Alegre, cidade no sul do Piauí que contém apenas 10 mil habitantes. Ela teve uma infância e adolescência sem sofrimentos, assim, quebrando os estigmas associados aos imigrantes nordestinos, Adélia morava na cidade com seus pais e aos fins de semanas ia para a fazenda da família, para onde inclusive levava os amigos da cidade.
Ao ficar maior de idade é despertado nela o desejo de trabalhar e ser independente; com isso começa sua jornada com vendas, algo pelo qual ela se apaixonou. Trabalhou por sete anos em sua cidade natal até que recebeu, há 28 anos, uma proposta de seu primo, que morava em Brasília.
De antemão ela veio apenas para passear na capital federal, mas, muito aventureira, ela já estava cansada da vida monótona na pequena cidade no Piauí. Então ela decide ficar, só que para isso precisava de um emprego.
A primeira oportunidade dela trabalhar foi no Guará numa casa de família, mas isso só durou uma semana pois Adélia não tinha horário de descanso. -“Trabalhava o dia todo cuidando da casa e à noite, quando era meu horário de descanso , a patroa me colocava para ficar passando roupa a madrugada inteira. Depois de uma semana cansei, arrumei bem depressa minhas coisas, nem comuniquei nada antes, somente na hora de sair. E acredita que minha patroa implorou para eu ficar? E ainda teve a audácia de pedir para eu lavar a área antes de sair”, diz Adélia.
Posteriormente a essa terrível experiência a piauiense começa a trabalhar em outra casa de família como empregada. A casa agora era uma mansão no Lago Sul, local onde ela pode viver anos incríveis, já que ela realmente se sentia como parte da família. “Ela (patroa de Adélia) queria até comprar um apartamento para mim, acredita? , mas eu não queria dever obrigação. Eu prefiro dever dinheiro do que favor e gratidão”, acrescenta.
Após passagens por casas de famílias, Adélia finalmente consegue um emprego na área de vendas, algo tão desejado. Ela tinha o costume de viajar para Goiânia para comprar roupas.
A então empresa onde ela trabalhava fechou o que a fez começar a vender as peças que ela comprava. “Eu vendia tudo que comprava”, cita a empreendedora. Adélia casou logo após, porém algo que iria agregar na vida dela a feriu bastante, seu marido bebia muito, mas ela conseguiu enfrentar e continuar sua jornada nas vendas. Porém no início não foi fácil. Adélia não tinha dinheiro para fazer as viagens em busca das roupas. Foi aí que sua irmã deu um empurrãozinho com a ajuda financeira que ela precisava para essa viagem.

“Meu empreendimento é para todas as pessoas, plus, magras, adultos, jovens, homens, mulheres”.
Atualmente Adélia é proprietária de uma pequena loja na região administrativa de Brazlândia, que se chama Casa 199, loja essa focada no público em geral, moda sem gênero. “Meu empreendimento é para todas as pessoas, plus, magras, adultos, jovens, homens, mulheres”, diz a empreendedora.
Adélia fala com muita felicidade e orgulho que, sim. Apesar de tudo que aconteceu em sua vida, a melhor coisa foi ter vindo para Brasília e ainda destaca que mesmo estando longe continua a investir em sua cidade natal, principalmente na compra de terras, pois planeja voltar para lá quando se aposentar. Algo que é possível observar em diversos entrevistados: essa vontade de voltar para o Nordeste após aposentadoria.
Reportagem produção de vídeos e fotos:
William da Silva Sousa & João Guilherme da Silva Melo.
Trabalho da disciplina Projeto Integrador- Reportagem Multimídia, do curso de Jornalismo - Centro Universitário Iesb.
Orientadora: Professora Mestre Candida Lemos França Mariz.





















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